Impasses

Layane Ozanski - aluna do curso de Ciências Contábeis da UESPAR - ficou em primeiro lugar no I Concurso de Crônicas da UESPAR

 

 

 

Impasses

 

“Sempre estava errado

De uma forma ou de outra

De um lado ao outro do quarto

Um novo dia sem nenhum sentido

É assim que a vida corre

Uma desesperança por vez

Solitário a devanear

Ouço vozes e gemidos

Ouço ruídos pesarosos

Uma pilha de “me desculpe”

Se formam atrás do sofá

Vou incendiar meu apartamento

E vou sorrir enquanto meus arrependimentos

Se jogam da janela do décimo terceiro andar

Voar é melhor que morrer aqui

O fedor das minhas vergonhas se confundem

Com o conhaque barato e vômito

Um banquete para o diabo

A morte sorri com a melodia do meu desespero

Esta noite então me volto para o banheiro

Não sei onde deixei meus comprimidos

Quero dormir

Mas eles estão sorrindo para mim

E isso me assusta”

 

Em um guardanapo, num Café qualquer, acompanhados de gordura e chantilly, estavam registrados meus últimos lamentos, sem incertezas, sem volta, sem prazer, sem razão ou emoção.

Tudo começou aquela noite, queria apenas sair com uns amigos para beber, dançar e me divertir. Contudo, se eu soubesse o que estaria por vir, jamais teria atravessado aquela porta.

Entrei na casa ao som de “Girl from the North Country”, recebi uma dose de tequila, cumprimentei alguns amigos e a vi, sozinha num canto da sala, com um copo de cerveja na mão. Aqueles cabelos ondulados castanhos caindo pelos ombros, um vestido bordô que realçava suas maçãs do rosto e seu coturno preto com ligas metálicas. Ela era mágica. Mas eu, certamente, não teria chances com a garota mais linda do norte do país.

Ficou sentada naquele sofá cinza, totalmente discreta, bela e enigmática. E eu bebendo, observando cada detalhe seu. Primeiro impasse da noite: de um lado minha razão me induzindo a puxar conversar, do outro, minhas emoções me tornando um covarde.

Tudo mudou logo que começou a tocar “Girls just want to have fun” e ela deu aquele sorriso malicioso, me olhando provocativa. Meus amigos começaram a gritar e me empurrar para a sala, eu vidrado em seu sorriso fui sem contradições. Ofereci uma bebida e disse como estava linda com aquele vestido bordô, vermelho, ou era violeta? Já não sabia, estava bêbado demais para conseguir discernir cores.

Passamos algum tempo conversando, sua voz doce era fascinante, eu estava encantado por ela. De repente roubei um beijo, ela ficou vermelha. Eu me assustei com a coragem repentina, pedi desculpas e tímida, disse que precisava ir embora. Fui acompanhá-la até sua casa, no meio do caminho confessou-me que nunca tinha beijado ninguém antes, por isso havia reagido com rubor. Eu sorri para ela, que me beijou novamente.

Assim começou o início do fim. Entre beijos e sussurros, nos deitamos no gramado da casa abandonada, cheios de desejo. Apreciando seu corpo, comecei despi-lo, entre beijos doces e respirações ofegantes. No entanto, ela parou, me olhou confusa e disse não. Segundo impasse da noite: de um lado a razão me forçando a parar, ela não queria, o corpo era seu e eu não tinha esse direito, do outro lado, todavia, emoções, julgamentos descontrolados, por que não, se correspondeu? E aquele vestido curto subscrito “coma-me por favor”?

Mas eu não conseguia parar, eu não queria parar, e não ia parar. Rasguei sua calcinha e debatendo-se começou a gritar quando lhe introduzi. Eu fiz tanta sujeira, a posicionei de todas as formas, foi como estar brincando de boneca pela primeira vez, usei aquele corpo de pele macia de várias formas para meu prazer, até ficar saciado. Ela caiu desmaiada com um gemido, estava sangrando. Olhei aquele lindo rosto, agora com semblante de dor e todas as minhas culpas caíram sobre mim como o peso do céu. Eu corri, até não aguentar mais e cai chorando, remoendo cada cena de prazer que agora me apavorava.

Apaguei por um tempo, acordei com o som alarmante de sirenes, seguindo o barulho, me deparei com o terceiro impasse da noite: aquela cena, minha razão implorando por justiça, para que me entregasse, do outro lado, porém, a culpa, o corpo da garota mais linda do norte do país estava ali, sem vida, jogado no gramado da casa abandonada, a garganta cortada com um estilhaço da janela quebrada, suicídio pela dor. Com medo, eu precisava fugir.

Passados dias trancado em meu apartamento, sem comer, sem atender as chamadas, ou o tocar da campainha. Eu não conseguia nem olhar no espelho. Escutava a repercussão do caso, e os julgamentos: “Mas que roupa ela estava vestindo?”, “Por que ela saiu sozinha à noite?”, “Ela estava bêbada?”, “Pediu para ser estuprada!”. Foi então que entendi. Por que culpá-la? O monstro sou eu. Uma garota não pode andar sem medo à noite sozinha? A rua também é dela. Insistem em ensinar mulheres a se protegerem contra estupros não usando roupas curtas para não chamar atenção, não sair sozinha, não voltar tarde, não beber, não falar com estranhos ou outros disparates, enquanto deveriam estar ensinando pessoas a não estuprar.

Não importa a roupa que a garota usava, seu histórico amoroso e pessoal, seu consumo de bebidas e drogas, ou o lugar onde ela estava. Vivemos numa sociedade hipócrita que persiste na culpabilização da vítima. O motivo não é a roupa, visto que existem milhares de casos de estupros no Afeganistão e os maiores índices de estupros não são na praia. Não adianta não falar com estranhos, sendo que 75% dos casos o estuprador é alguém da família ou se preocupar em sair à noite, quando vítimas são atacadas em plena luz do dia. Culpar a vítima é camuflar o ato do agressor, consequentemente, sustentando e perpetuando a cultura do estupro. Tudo estava muito claro agora. Então compreendi, decidi e enfim, prossegui.

E lá estava eu, em um Café qualquer, escrevendo meu próprio discurso fúnebre. Dessa vez, sem impasses, minha razão e emoção entrelaçadas, me levaram a percorrer o mesmo caminho. E aqui estou, sentindo o cheiro desta interna podridão, contemplando meu corpo em decomposição, vendo minha culpa virar fumaça enquanto queimo pela eternidade.

Fonte: Layane Ozanski


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